Há poucos dias, li um artigo que sugeria o aumento do poder eleitoral dos idosos no Brasil contemporâneo. Segundo o texto, o dado que confirmaria esse poder estaria no salto do eleitorado com 60 anos ou mais: eram 20,8 milhões em 2010 e passaram para 36,2 milhões em 2026. Um crescimento de 74% — uma expansão quase cinco vezes maior que a do conjunto do eleitorado total. Quem acompanha de perto o comportamento do eleitor sabe que o voto depende das informações a que ele tem acesso. Essas informações chegam principalmente via grande mídia e redes sociais, onde se destacam os formadores de opinião que moldam a percepção sobre candidatos e problemas sociais. Embora a rede de amigos e vizinhos ajude a formar a opinião pessoal, ela ainda é muito dependente desses grandes fluxos. É claro que a experiência de vida ajuda a questionar o que se recebe e a reelaborar visões embasadas no testemunho pessoal. No entanto, para que esse poder numérico não seja apenas um potencial adormecido, é preciso que surjam formadores de opinião vinculados organicamente a esse eleitorado 60+. Só assim teremos capacidade real de transformação. O Voto Além das Promessas Genéricas Orientar o voto desse grupo exige foco em políticas de inclusão e reconhecimento. Precisamos questionar o candidato diretamente: Fiscalização e Fundos: Como ele vem fiscalizando os recursos dos Fundos do Idoso? Ele propõe auditorias ou relatórios de transparência? Infraestrutura e Financiamento: Qual o seu conhecimento sobre investimentos internacionais (BIRD ou KfW) e como eles serão aplicados na infraestrutura urbana local? Urbanismo e SBN: O plano de governo trata o envelhecimento como um tema isolado ou transversal? Em tempos de mudanças climáticas, o candidato propõe Soluções Baseadas na Natureza (SBN)? Jardins de chuva e arborização urbana são vitais para o conforto térmico de quem circula a pé. Mobilidade Integrada: Há previsão de maior integração tarifária e acessibilidade real nos terminais? A segurança para pedestres e ciclistas é prioridade? Cidade Amiga do Idoso: O candidato conhece o conceito da OMS e defende que ele integre o Plano Diretor da cidade? Voz Ativa: Ele propõe fortalecer os Conselhos do Idoso e dar voz deliberativa às plenárias nas decisões sobre o orçamento? Patrimônio: Existe plano para valorizar o patrimônio histórico e imaterial, reconhecendo quem construiu a identidade dos bairros e das universidades? O Conceito de “Cidade Amiga do Idoso” Desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007, este conceito baseia-se na premissa do envelhecimento ativo. Uma cidade “amiga” não é apenas aquela que “cuida” dos seus idosos, mas aquela que adapta suas estruturas e serviços para que pessoas com diferentes capacidades possam envelhecer com segurança, saúde e, principalmente, participação social.Os dados sobre o processo eleitoral nos colocam um desafio urgente: como o Movimento Sociedade Sem Idadismo pode contribuir para o rompimento das barreiras que nos impedem de viver em uma cidade mais inclusiva e sustentável? O voto 60+ em 2026 pode contribuir para que Porto Alegre se torne uma cidade amiga de todas as gerações. Milton Cruz, doutor em Sociologia pela UFRGS Navegação de Post O Fio que Une Gerações: Um Sábado de Memória e Futuro na CEUFRGS Reflexão sobre um projeto possível: Caminhos da Memória e do Bem Comum
Bom dia Milton. Gostei do texto. Sou militante de rua, inclusive fui candidata a vereadora com 80 anos e confesso minha decepção com os idosos. Eles não querem participar da política e muito menos votar. Difícil conquistá-los. Reply
Bom dia, Selma. Difícil mas não impossível. E, na verdade, do jeito que andam nossos representantes, está dífícil para qualquer faixa etária. Sequer os jovens estão muito envolvidos. Mas estamos aqui justamente para encontrar uma forma de mudar essa situação. Reply
Olá, Selma. É bom ter pessoas com a tua experiência para buscarmos alternativas de mobilização das pessoas idosas que ainda acreditam no projeto de sociedade humana e inclusiva. Penso que devemos começar pelos idosos e jovens que têm essa crença para organizar um movimento que exija que os candidatos atuem de forma transparente e ética. Reply
Muito bem colocado, Milton! Precisamos agora, mais do que nunca sensibilizar as pessoas idosas a continuarem votando e participando dos debates e necessidades das cidades. Reply