A certa altura da vida, os antigos moradores da CEUACA também enfrentam a seleção silenciosa do tempo. Primeiro desaparecem os cabelos escuros. Depois vem a aposentadoria. Os filhos crescem, os netos chegam e, sem que ninguém perceba exatamente quando, começam a faltar pessoas nas fotografias dos reencontros. É nessa hora que os reencontros da CEUACA deixam de ser apenas festas. Transformam-se em atos de resistência contra o esquecimento e não mais contra a ditadura. Dias atrás, um dos ex-moradores compartilhou um texto atribuído a Clint Eastwood. Nele, dizia-se que o maior peso da velhice não está nas dores do corpo, mas na lenta ausência daqueles que conheceram a nossa juventude. À medida que os anos passam, o telefone toca menos, as conversas diminuem e as histórias parecem interessar cada vez menos aos mais jovens. O texto tocou fundo em muitos ceuacanos. Mas logo alguém respondeu: — Na CEUACA acontece um pouco diferente. É verdade que o tempo levou alguns companheiros. É verdade que alguns já não conseguem viajar para os encontros. É verdade que outros enfrentam doenças, limitações e perdas que nunca imaginaram quando tinham vinte anos e acreditavam que a vida seria infinita. Mas existe uma diferença. Sempre que um ex-morador encontra outro, a Casa reabre. Não importa se passaram quarenta ou cinquenta anos. Basta alguém dizer: — “Lembram do restaurante?” E imediatamente outro completa: — “E das assembleias de terça-feira?” Surge um terceiro: — “E das rodas de samba?” Logo aparece alguém recordando uma passeata, uma carona para o interior, uma serenata na CEUFRGS, um chimarrão compartilhado no corredor ou uma madrugada estudando para a prova. As histórias voltam. Não porque a memória esteja falhando. Mas porque ela continua cumprindo sua missão. Cada lembrança contada devolve à vida um pedaço da velha Casa. Os mais jovens, às vezes, perguntam por que eles contam sempre as mesmas histórias. A resposta é simples. Porque aquelas histórias não pertencem apenas a quem as viveu. Pertencem à história da universidade, da assistência estudantil, da democracia e da formação de milhares de jovens brasileiros. Quando recordam os debates políticos, não estão falando apenas de si. Quando lembram das rodas de samba, não falam apenas de música. Quando narram as assembleias, não descrevem apenas reuniões. Todos estão transmitindo uma forma de viver. Uma cultura. Uma ética. Uma ideia de comunidade. Os antigos moradores sabem que as paredes da Rua Riachuelo envelheceram. A Casa foi fechada. Muitos corredores já não recebem estudantes. O restaurante silenciou. O bar não vende mais leite, nem refrigerante, nem cerveja a preço de custo. Mas existe uma Casa que continua aberta. Ela mora na memória coletiva. E essa ninguém consegue fechar. Talvez por isso os reencontros da CEUACA emocionem tanto. Eles não são apenas encontros de idosos recordando a juventude. São encontros de guardiões de uma experiência que continua ensinando às novas gerações que a universidade não é feita apenas de salas de aula, laboratórios e diplomas. Ela também é feita de amizades que sobrevivem ao tempo, de solidariedade praticada no cotidiano e da convicção de que ninguém transforma a própria vida sozinho. Se um dia algum jovem estudante perguntar por que vocês insistem em contar essas histórias, respondam com serenidade: — Porque a memória também é uma forma de cuidar do futuro. Enquanto alguém lembrar da CEUACA, ela continuará acolhendo estudantes. Não mais com quartos, camas ou refeições, mas com aquilo que nenhuma instituição consegue oferecer sozinha: a certeza de que uma comunidade solidária pode mudar o destino de uma pessoa. E talvez seja esse o verdadeiro privilégio da velhice. Não apenas acumular anos. Mas descobrir que as lembranças mais bonitas deixam de ser propriedade de quem as viveu e passam a pertencer às gerações que ainda virão. Se Clint Eastwood afirma que a velhice pesa pela ausência daqueles que conheceram nossa juventude, os ceuacanos descobriram que esse peso se torna mais leve quando a comunidade construída na Casa continua viva nas amizades que atravessam o tempo. Milton Cruz. Sociólogo e pesqujisador. Navegação de Post Sabedoria e Ética: o valor da pessoa idosa na sociedade do descarte