A cidade do prefeito e dos vereadores que aprovaram

o novo Plano Diretor de Porto Alegre trocou os 

vínculos comunitários pela racionalidade da mercadoria.

A busca contemporânea por liberdade, trabalho digno e qualidade de vida não depende apenas de conquistas individuais. Ela exige também a capacidade de compreender criticamente os valores e representações que orientam a vida em sociedade. Em uma época marcada pelo consumismo, pela competição permanente e pela mercantilização de quase todas as dimensões da existência, torna-se fundamental distinguir entre os modelos de vida que aprofundam o isolamento, a ansiedade e o sofrimento humano e aqueles que fortalecem a cooperação, a solidariedade e o bem-estar coletivo.

A lógica que transforma tudo em mercadoria — inclusive o tempo, as relações sociais e os próprios territórios — contribui para o enfraquecimento dos vínculos comunitários e para a expansão de problemas emocionais e físicos que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Nesse contexto, a cidade deixa de ser um espaço de encontro, convivência e construção de pertencimento para tornar-se apenas um local de circulação, consumo e disputa por oportunidades.

Diante desse cenário, cabe uma pergunta fundamental: nossas cidades estão sendo planejadas para acolher as pessoas ou apenas para atender às exigências do mercado? Estamos construindo espaços capazes de promover a convivência, a participação cidadã, a solidariedade e o sentimento de pertencimento? Ou estamos contribuindo para aprofundar a fragmentação social e a sensação de desenraizamento que marca a vida urbana contemporânea?

Mais do que organizar edifícios, ruas e infraestruturas, planejar uma cidade significa criar condições para que seus moradores reconheçam nela um lugar de vida, de memória, de encontro e de futuro compartilhado. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana é aquela que oferece razões para que seus habitantes sintam que vale a pena viver, conviver e construir coletivamente o bem comum.

A aprovação do novo Plano Diretor pelo prefeito e pela maioria dos vereadores pode ser interpretada como um afastamento da perspectiva de cidade voltada ao convívio, ao pertencimento e ao bem comum, reforçando um modelo urbano que privilegia a lógica da valorização imobiliária em detrimento das necessidades humanas e comunitárias.

Milton Cruz, sociólogo e pesquisador

One thought on “Quando a cidade deixa de acolher: a crise de identidade dos moradores em um território transformado em mercadoria”
  1. Para mim, não há dúvida. Todas as decisões ocorrem na lógica do mercado! O viver e conviver dos idosos é um ato de resistência!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.