Recebi recentemente, em uma rede social, a seguinte frase: “Não absorva todos os conselhos dos mais velhos. Idiotas também envelhecem.” O tom provocativo chama a atenção para uma verdade muitas vezes esquecida: envelhecer é um processo biológico; tornar-se sábio é uma conquista intelectual e ética. A sabedoria não é um prêmio automático concedido pelo tempo, mas o resultado da reflexão, do aprendizado contínuo e da capacidade de exercer o discernimento.

Essa compreensão já estava presente na filosofia clássica. Sêneca afirmava que “não é o tempo de vida, mas o bom uso da vida, que produz sabedoria”. Séculos depois, Michel de Montaigne observou que a experiência só adquire verdadeiro valor quando acompanhada de julgamento crítico. Em ambos os casos, a mensagem é clara: viver muito não basta; é preciso aprender com a vida.

Infelizmente, ainda persiste a ideia de que a crítica serve apenas para desqualificar os argumentos alheios ou impor a própria opinião. Essa visão empobrece o debate público e reduz a crítica a um instrumento de confronto. Em seu sentido mais nobre, porém, a crítica é justamente o contrário: é um exercício de reflexão, de questionamento e de busca da verdade, indispensável para o aperfeiçoamento das pessoas, das instituições e da própria democracia.

Não por acaso, muitos líderes e governantes enxergam a crítica como uma ameaça. Quando prevalece a lógica da concentração de poder, o pensamento crítico passa a ser visto como um obstáculo, porque questiona certezas, exige justificativas, cobra transparência e amplia a participação da sociedade nas decisões. No entanto, é precisamente essa capacidade de questionar que impulsiona o conhecimento, fortalece a cidadania e permite que uma sociedade aprenda com seus próprios erros.


Milton Cruz.Sociólogo. Doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor do livro A Cidade e a Modernização. Membro do Movimento Sociedade Sem Idadismo.

One thought on “Envelhecer é inevitável; tornar-se sábio é uma escolha”

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