Já levei tombos na vida.

De carrinho de rolimã nunca, não tínhamos acesso.

De bicicleta, nunca. Era bom nisso.

Tive meus tombos não físicos.  Prisão na ditadura. Não reeleição de vereador.

Agora, tombo mesmo, tropeço de se estatelar foi no domingo dia 28 de junho de 2026 numa rua em Altamira, no Pará.

Começara a chover e dei uma apressada e lá estava eu estirado, estatelado no chão, o ombro e braço esquerdo imóvel.

Mal pude levantar.

Bem atendido na UPA.

Tive que interromper minha incursão Brasil Adentro depois de uma semana, quando minhas previsões eram 21 dias.

Depois de 77h30min de ônibus de Porto Alegre a Santarém, passei dois bons dias ali, sendo que conheci Alter do Chão, um dos paraísos da Terra.

Dali pela Transamazônica cheguei a Altamira, onde me aconteceu o infortúnio.

Minha cirurgia foi no Hospital São Francisco da Santa Casa.  Dia 31 de julho. Procedimento que durou quase cinco horas pela complexidade da recuperação do úmero, parte superior do ombro com uma prótese reversa. Meu atendimento foi pelo IPE Saúde, depois de alguns perrengues.

Sei que o processo de recuperação será longo e exigirá paciência e cuidados. Farei tudo o que tiver que ser feito.

Lições

Há cinco anos estamos estudando o envelhecer em nosso Coletivo Metamorfose da vida que rendeu quatro livros coletivos.

Um dos temas que sempre demos atenção foi o da mobilidade e acessibilidade física das pessoas idosas.

Sempre sinalizamos que Porto Alegre é uma cidade hostil às pessoas idosas.

Quando em Santarém havia escrito um texto sobre o quanto aquela cidade era hostil para caminhantes, com meio fio altíssimo, desproporcional, com uma canaleta separando a pista de rolamentos da calçada quase perigosa.

Fiz fotos de Altamira mostrando uma situação pouco melhor, mas complicada.

E foi ali meu tombo monumental. Chovia, desci para a rua, e como foi nem sei ao certo, porque apressei os passos para não me molhar mais.

Aí o erro que sempre alertamos. Pessoas Idosas devem obedecer ao seu ritmo. Jamais forçar; nunca exorbitar.

Eis a grande lição.

Eu já havia proposto a nosso grupo criação de um Selo Cidade Amiga da Pessoa Idosa. E vamos levar esta proposta adiante.

Intercorrências

Uma cirurgia não é só uma cirurgia. Por mais complexa que tenha sido a minha, não se podem desconhecer as longas horas de anestesia, os medicamentos para dores, os antibióticos. Para uma pessoa idosa os efeitos são bem complicados. Anotem.

Gratidão

Gratidão ao pessoal do Hotel Xingu, aos serviços da UPA. Em Altamira.

Aqui, aos profissionais da Santa Casa, ao pessoal que me ajudou no tema do Ipê Saúde. Aos amigos e de um modo muito especial a minha esposa Rosângela Benetti Almeida, minha fada cuidadora e protetora.


Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

By Adeli Sell

Adeli Sell é professor, escritor, bacharel em Direito, vereador em Porto Alegre.

One thought on “O tombo”
  1. Tua aventura por Altamira me fez refletir sobre os tombos que já sofri. Foram muitos. De bicicleta, tropeçando, escorregando, jogando bola. Durante toda a vida eles aconteceram. A pressa e o desconhecimento do terreno sempre foram as maiores causas das quedas. As quedas na infância e na juventude foram de rápida recuperação. Depois dos 40, foram seis meses de recuperação de uma entorse de terceiro grau no pé, devido a um meio-fio localizado em um lugar que eu não esperava. Cair aos 60, 70 ou mais é mais desafiador. Aprendi que, à medida que a idade avança, precisamos mapear com mais cuidado por onde andamos e aprender com a ioga a arte do equilíbrio, do alongamento e do fortalecimento muscular. E que os governantes precisam conhecer os bairros por onde os idosos circulam e criar programas de adaptação da cidade para a mobilidade ativa. Afinal, a cidade deve ser planejada, em primeiro lugar, para as pessoas de todas as idades que gostam de caminhar e usufruir dos espaços públicos.

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