Mas a ameaça continua No Brasil de hoje, a população idosa já é um país dentro do país – e quase toda ela depende do Estado. Pelo Censo de 2022, somos 32,1 milhões com 60 anos ou mais, 15,6% da população. A PNAD Contínua de 2024 encontrou 34,1 milhões, um salto de 53,3% desde 2012. A estimativa para 2026 é de 36,6 milhões, 17,1% dos brasileiros. É a faixa que mais cresce. A projeção oficial do IBGE aponta 61,5 milhões em 2046. Desse país de idosos, quantos dependem do Estado para viver? Em 2025, o INSS tinha 40,7 milhões de beneficiários, 70% recebendo apenas um salário mínimo. Só as aposentadorias ativas são 24 milhões. Na prática, 2 em cada 3 idosos têm a aposentadoria como principal fonte de renda. E mesmo assim, 1 em cada 4 idosos ainda trabalhava em 2024, porque a aposentadoria não cobre o custo de vida. É aqui que entra o debate da desvinculação. Pela Constituição, nenhuma aposentadoria e nenhum BPC pode ser menor que um salário mínimo. Se desvincular, o governo pode reajustar quem ganha um salário mínimo apenas pela inflação, enquanto o salário mínimo sobe com ganho real. Foi exatamente a regra do governo Bolsonaro, de 2019 a 2022: reajuste só pelo INPC. Quatro anos sem ganho real. Só reposição da inflação. A regra atual, retomada por Lula pela Lei 14.663/2023, é INPC mais o crescimento do PIB de dois anos antes, com teto de 2,5% de ganho real. Deu 4,69% de ganho real em 2024 e 2,61% em 2025. Simulamos a desvinculação a partir de R$ 1.621,00, valor do mínimo em 2026, com INPC de 4% ao ano: Cenário A – aposentadoria só com INPC, regra Bolsonaro: 2027 R$ 1.686, 2030 R$ 1.896, 2034 R$ 2.218. Cenário B – salário mínimo com valorização, INPC + 2% real: 2027 R$ 1.718, 2030 R$ 2.046, 2034 R$ 2.582. Diferença por mês: menos R$ 32 no primeiro ano, menos R$ 150 em 4 anos e menos R$ 364 em 8 anos. Perda acumulada de 2%, 7,3% e 14,1%. Na prática: 1. Quem ganha um salário mínimo – 70% dos 40,7 milhões – passaria a receber, em 4 anos, 0,92 salário mínimo. Em 8 anos, 0,86. 2. No bolso, é R$ 150 x 13 = R$ 1.950 a menos no 4º ano e R$ 4.732 a menos no 8º ano, contando o 13º. Para os 2,73 milhões de idosos no BPC, a mesma conta. 3. O poder de compra desaba em relação ao trabalhador da ativa. Entre 2019 e 2022, o mínimo que comprava 2,04 cestas básicas em São Paulo passou a comprar 1,59. 4. Cada 1% de diferença entre mínimo e aposentadoria economiza R$ 5 a 6 bilhões para o governo. Por isso a proposta sempre volta. Mas o custo é transferido para 25 milhões de famílias que vivem com um mínimo. Se vier com reajuste só por INPC, em 8 anos teremos oficialmente aposentadorias abaixo do salário mínimo – exatamente o que a Constituição proíbe. E lembremos: o candidato Flávio Bolsonaro já disse que vai alterar a Constituição de 1988. Isso pode significar o fim da obrigação legal do piso de um salário mínimo e da política que vem permitindo recuperar o poder de compra da cesta básica. Por que então o mercado apoia Flávio Bolsonaro e reage mal a Lula? Não é torcida, é leitura de risco de curto prazo. O governo Bolsonaro manteve teto de gastos, privatizações, independência do Banco Central e reforma da Previdência. Para fundos e bancos, isso é previsibilidade. Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras com preço de mercado é proteção para acionista minoritário. Menos regulação em mineração, agronegócio e sistema financeiro é menos custo para essas empresas. O modelo Lula recoloca o Estado como indutor: gasto social, BPC, mínimo com ganho real, reindustrialização, controle de preço de combustível. Para o mercado, isso é risco de deficit. Taxar dividendos e grandes fortunas afeta lucro do acionista. Mais gasto projetado significa Banco Central com juros altos por mais tempo, o que derruba bolsa. A reação inicial, porém, é curta. Aumento real de mínimo e BPC injeta consumo na base e aumenta faturamento de varejo, bancos e indústria de alimentos – que também estão na bolsa. Investir no SUS e na proteção social reduz custo de saúde privada e melhora produtividade. Em resumo: o mercado lê Flávio Bolsonaro como contenção fiscal e menos intervenção, e Lula como expansão fiscal e mais intervenção. Reage ao primeiro como menos incerteza e ao segundo como mais incerteza nos primeiros dias. Não diz quem fará a economia crescer mais em 4 ou 8 anos. Diz o que quem vive de juros e dividendos de curto prazo precifica. O modelo Bolsonaro tem como consequência a instabilidade social – mais pobreza e violência urbana – que, depois, vai exigir mais repressão e manipulação de consciências. Esse modelo atinge em cheio a rede varejista de alimentos e medicamentos das pequenas e médias cidades, porque essas cidades vivem de INSS. No interior, o comércio vive de três fontes: INSS, 40,7 milhões de beneficiários, BPC, 2,73 milhões de idosos, e salário mínimo, referência para diarista, agricultor e balconista. A Confederação Nacional dos Municípios mostra que em mais de 60% dos municípios com menos de 20 mil habitantes, o INSS injeta por mês mais que o FPM. O dinheiro cai no dia 1º e no dia 5 já está no mercado, na farmácia e no açougue. Quando da aplicação da regra só-INPC (governo Bolsonaro) o varejo sentiu. Nos alimentos, a perda de poder de compra foi de 2,04 para 1,59 cestas básicas. O cliente trocou marca líder por marca própria, carne por ovo. O Ticket médio caiu, a frequência se manteve, porque comida não se deixa de comprar. A inflação corroeu a margem do pequeno, que não negocia com grande distribuidor. Aproximadamente 75,3% dos idosos dependem só do SUS. Quando não acham medicamento no posto, vão para a farmácia. Com mínimo sem ganho real, o que se viu foi o parcelamento e o abandono de tratamento, o que tende a piorar a saúde da população de menor renda. Quando o mínimo não cresce acima da inflação, a cidade cresce só nominalmente. Se alimento sobe 10% e o mínimo 5%, há 5% menos circulação real. 1% de perda real no mínimo tira R$ 5 a 6 bilhões de consumo por ano no país, e faz falta justamente onde mercado e farmácia são os maiores empregadores depois da prefeitura. No modelo Bolsonaro que corrige só pelo INPC é só foca no ajuste fiscal temos: ao segurar o mínimo, segura despesa obrigatória para tentar baixar juros e dívida. Para o mercado, seria condição para retomar investimento nas cidades grandes, que, depois, transbordaria para o interior. Lembra a frase de Delfim Neto: primeiro fazer o bolo crescer para depois dividir. Na prática local, a diferença é clara: mínimo só com INPC segura despesa federal, mas congela circulação local, vende menos proteína, vende mais genérico fiado, achata a pirâmide – quem ganha 2 salários passa a ganhar 1,8 – e deixa a cidade mais dependente de transferência federal e de emenda parlamentar, o que interessa à política tradicional que controla essas verbas. Já o mínimo com INPC + PIB, até 2,5%, injetou R$ 106 a mais por beneficiário em 2025, de R$ 1.412 para R$ 1.518. Esse dinheiro vai direto para o caixa do mercado e da farmácia. Aumenta custo do INSS, mas aumenta base de ICMS e ISS da cidade, porque consumo sobe. O modelo Lula de valorização do mínimo não é só renda do aposentado. É política industrial local. É o faturamento do pequeno comércio, das redes de alimentos e medicamentos, e o promotor do desenvolvimento das pequenas e médias cidades. Foi a ação dos idosos e dos jovens nas ruas e nas redes que nos livrou de uma catástrofe social nesta eleição. A ameaça, porém, continua na disputa econômica que virá no Congresso. Milton Cruz, sociólogo e pesquisador. Navegação de Post EUTANÁSIA: aprendendo a cuidar no momento da morte