Após ler o resumo da entrevista recente de Caetano Veloso ao jornal espanhol El País, publicada em 1º de junho de 2026 durante a turnê europeia do artista, achei importante fazer uma reflexão sociológica sobre o Brasil em que vivemos e compartilhar com o Movimento Sociedade Sem Idadismo. A conclusão é que os movimentos sociais dos jovens, das mulheres, dos negros, dos indígenas e, porque não, o Movimento Sociedade Sem Idadismo, precisam identificar as possibilidades da sua articulação com as propostas e projetos que propõem a mudança do sistema, do status quo que reproduz os privilégios e as desigualdades na sociedade. Os principais temas abordados por Caetano foram: 1. Preocupação com o BrasilCaetano afirmou que vive um momento de preocupação e desencanto com os rumos do país. A frase que mais repercutiu foi: “O Brasil parece que não pode ser salvo.” Apesar disso, ele acrescenta que ainda acredita na capacidade da cultura brasileira de oferecer uma contribuição importante ao mundo. 2. Memória da ditadura militarAo ser questionado sobre a possibilidade de retorno de tendências autoritárias, lembrou sua própria experiência de prisão, confinamento e exílio durante a ditadura militar brasileira, manifestando inquietação com a naturalização de discursos favoráveis ao regime. 3. Tropicalismo e abertura culturalCaetano reafirmou uma das ideias centrais do tropicalismo: a cultura brasileira se fortalece quando dialoga com influências externas, rejeitando visões puristas ou nacionalistas da cultura. 4. Debates sobre identidadeNa entrevista, também comentou que questões raciais, sexuais e de gênero ganharam grande visibilidade no debate público contemporâneo. Embora reconheça a importância desses temas, avaliou que, em alguns momentos, há excesso de exposição em relação a eles. A entrevista de Caetano Veloso convida para uma reflexão sobre impasses históricos da sociedade brasileira. Quando ele afirma que “o Brasil parece que não pode ser salvo”, está expressando uma percepção de crise que ultrapassa a conjuntura política e remete a questões estruturais da formação social do país. A crise da ideia de progresso Durante grande parte do século XX, predominou a expectativa de que o Brasil caminhava, ainda que lentamente, para uma sociedade mais moderna, democrática e inclusiva. Essa visão esteve presente em autores como Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes. Após a redemocratização, a ampliação dos direitos sociais e a redução da pobreza em determinados períodos, muitos acreditavam que o país havia consolidado um caminho de desenvolvimento democrático. A persistência da desigualdade, da violência, da polarização política e da fragilidade institucional, entretanto, colocou em dúvida essa narrativa. A memória da ditadura e o temor do retrocesso Caetano, e minha geração também, pertencem a uma geração marcada pela repressão da ditadura militar. Do ponto de vista sociológico, a preocupação com discursos autoritários reflete um fenômeno observado em diversas democracias contemporâneas: o enfraquecimento da confiança nas instituições e o crescimento de lideranças que se apresentam como alternativas à política tradicional. Autores como Zygmunt Bauman e Pierre Rosanvallon destacam que a crise de representação pode produzir sentimentos de frustração e descrença . Tropicalismo e defesa da diversidade cultural A entrevista reafirma um dos princípios centrais do tropicalismo: a cultura brasileira se fortalece pela mistura e pelo diálogo com o mundo. Nesse aspecto, Caetano se aproxima da tradição modernista inaugurada pela Semana de Arte Moderna de 1922 e das ideias de Oswald de Andrade. Para essa visão, a identidade nacional não é algo puro ou fixo; ela se constrói por meio da incorporação criativa de influências externas. Trata-se de uma concepção oposta aos nacionalismos culturais que defendem identidades homogêneas e fechadas. Identidade, reconhecimento e tensões contemporâneas As observações de Caetano sobre raça, gênero e sexualidade podem ser analisadas à luz das chamadas “políticas de reconhecimento”. Sociólogos como Axel Honneth e Nancy Fraser argumentam que grupos historicamente marginalizados passaram a reivindicar visibilidade e reconhecimento público. O debate contemporâneo gira em torno de uma questão central: como equilibrar as demandas por reconhecimento das diferenças com a construção de projetos coletivos mais amplos? Não se trata necessariamente de negar a importância das pautas identitárias, mas de questionar se elas, isoladamente, conseguem responder aos desafios sociais mais abrangentes. A “sociedade do cansaço” e o desencanto A partir das reflexões de Byung-Chul Han sobre a chamada “sociedade do cansaço”, devemos considerar os contextos de excesso de informação, polarização permanente e crises sucessivas que afetam os indivíduos. Muitos experimentam sentimentos de exaustão, impotência e perda de horizonte coletivo. O estado de espírito atual é de esgotamento das narrativas que prometiam um futuro melhor. Entre o pessimismo e a esperança Caetano, embora manifeste preocupação com o Brasil, continua atribuindo enorme valor à cultura brasileira. A cultura brasileira se mostra criativa e inovadora apesar de receber muito menos recursos que partidos políticas e o congresso nacional, como mostra a tabela abaixo. ItemValor aproximadoCaptação via Lei Rouanet (2025)R$ 3,4 bilhõesFundo Eleitoral (2026)R$ 5 bilhõesFundo Partidário (2026)pouco mais de R$ 1 bilhãoEmendas parlamentares (2026)R$ 61 bilhões Sob uma perspectiva sociológica, isso sugere a coexistência de dois diagnósticos: Um pessimismo em relação às instituições e aos conflitos políticos; Uma confiança persistente na capacidade criativa da sociedade e da cultura. Essa tensão é recorrente na história intelectual brasileira. Muitos pensadores oscilaram entre a crítica severa aos problemas nacionais e a crença de que a diversidade cultural, a criatividade social e a capacidade de reinvenção do país poderiam abrir caminhos para o futuro. Eu continuo apostando na criatividade da sociedade brasileira que já foi capaz de criar o SUS, e de mostrar ao mundo nosso talento através do carnaval e do futebol. Milton Cruz, sociólogo, autor do livro A Cidade e a Modernização (Editora Appris), pesquisador das áreas de participação social, memória urbana e políticas públicas. Navegação de Post Reflexões sobre o 1°. Congresso Gaúcho de Comunicação Pública
Grande cidadão este Caetano Veloso…a conquista de direitos ou a luta para não perdê-los depende de consciência e mobilização política em todos os níveis! Ótimo artigo para reflexão. Obrigada. Reply