Em meu recente livro “Uma passagem para a Ásia”, falei dos cuidados e sustentação das pessoas idosas em países como o Laos, o Camboja, Vietnã e Tailândia. Os vizinhos parecem que seguem a mesma trilha.

Resumidamente, dizia que o cuidado de pessoas idosas na região é tradicionalmente familiar, com forte ênfase no respeito filial, onde filhos e parentes cuidam dos mais velhos em casa. 

No entanto, devido ao rápido envelhecimento, governos (especialmente no Vietnã) têm aumentado o suporte estatal e incentivado o cuidado comunitário.

No Brasil, no Oriente, mesmo na Europa, sem fugir dos dilemas da África, sustentar as pessoas idosas é não apenas caso da Humanidade, mas gera questões humanitárias.

BRASIL

Nós do “Coletivo Metamorfose da vida” – www.coletivometamorfosedavida.com.br – não nos surpreendemos com a notícia do dia:

Segundo historiadora, jovens terão que sustentar os idosos no Brasil.”

Estamos falando da historiadora e escritora Mary Del Priore, autora do clássico “Uma história da velhice no Brasil”.

Na matéria se fala que mudanças drásticas na estrutura familiar brasileira exigem uma nova forma de planejamento financeiro. Sim, estamos falando de longevidade, envelhecimento com pessoas morando sós, filhos muitas vezes distantes, sem condições de ter alguém na família para a tarefa não só de cuidar, mas faltam recursos da aposentadoria da pessoa idosa que exige cuidados, como os salários não ajudam os filhos a ter gastos maiores.

Na verdade, nossa encruzilhada demográfica vai redefinir o pacto entre gerações, conforme insiste Mary Del Priore.

Nosso processo de envelhecimento imporá um ônus sem precedentes aos mais novos, que deverão financiar a estrutura de suporte de um contingente de pessoas idosas cada vez maior. A previdência não lhes dá o lastro necessário, e isto que temos um SUS atuante. 

Esta “conta social”, segundo a historiadora, não é apenas uma questão de números, mas um desafio de organização do Estado e das famílias, que precisam se preparar para uma realidade onde a base da pirâmide produtiva está encolhendo, enquanto o topo, composto por pessoas com mais de 60 anos, expande-se em ritmo acelerado.

O grupo de brasileiros com 65 anos ou mais saltou para mais de 22 milhões de pessoas, representando um crescimento de 57,4% em apenas doze anos.

Atualmente, esse estrato já compõe 10,9% da população total, um contraste nítido com os 7,4% registrados em 2010. O fenômeno é fruto do aumento da longevidade e da queda acentuada na taxa de natalidade, criando um cenário onde o suporte econômico necessário para manter a saúde e a previdência torna-se uma pressão crescente sobre o mercado de trabalho jovem.

Há Estados e cidades, como o Rio Grande do Sul e sua capital, Porto Alegre, onde a situação é ainda mais grave.

As projeções gerais indicam que o panorama será ainda mais severo. Em um horizonte de 45 anos, estima-se que quase 38% dos brasileiros terão 60 anos ou mais, totalizando cerca de 75,3 milhões de idosos.

A historiadora enfatiza que o Brasil ainda não adequou sua infraestrutura urbana e econômica para essa transição, o que pode gerar um conflito de sustentabilidade.

E a pergunta é: o que estão fazendo as autoridades?

Estão sendo exigidas políticas públicas imediatas que repensem a produtividade e o acolhimento, sob o risco de sobrecarregar a juventude com uma carga financeira e de cuidados que comprometa o desenvolvimento do país nas próximas décadas.

OS DEBATES NECESSÁRIOS

O texto não chega a levantar algumas questões como as crises climáticas, pois elas vão exigir grandes volumes de recursos públicos e privados para manter a vida na Terra. O que sobrará para as pessoas idosas? Vamos aceitar que as pessoas idosas sejam descartadas, esquecidas, largadas à própria sorte?

O debate continua. O Tempo corre. E nós?

Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

By Adeli Sell

Adeli Sell é professor, escritor, bacharel em Direito, vereador em Porto Alegre.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.