Há algum tempo comecei a colecionar fragmentos, pois enquanto eu puder lembrar de você, você continuará inteira em algum lugar. Não são fotografias, embora algumas morem dentro de porta-retratos. Não são objetos, embora um terço, um brinquedo de gato ou uma mesa de jantar possam despertá-los. São pequenos pedaços de uma mulher que amo. Minha prima, ela era professora de Matemática. Dessas que explicavam com alguma paciência, encontravam caminhos diferentes para quem não entendia de primeira e comemoravam quando o aluno finalmente dizia: “Agora eu consegui.” Também era muito bonita. Vaidosa sem exagero, elegante sem esforço. Gostava das coisas bem cuidadas. De artes, em suas pinturas e desenhos. Das visitas. Do café servido com carinho. Se alguém chegasse sem aviso, sempre haveria alguma coisa para oferecer. Não teve filhos, talvez por isso tenha feito dos gatos uma extensão do afeto. Comprava a melhor ração, escolhia brinquedos, conversava com eles como quem conversa com crianças. A Sofia, uma gatinha preta, era tratada como uma princesa. Hoje a Sofia ainda se aproxima esperando o carinho demorado de outros tempos. Recebe um afago breve. E parece ficar procurando a mulher que conheceu. Acho que os animais também estranham o Alzheimer, embora não saibam dar nome a ele. Outro dia segurei as mãos da minha prima. Fiz um carinho lento, quase sem dizer nada, quando percebi que minha fala não tinha continuidade para um diálogo. Foi então que me dei conta de uma crueldade delicada da vida: não me lembro de ter acariciado suas mãos quando ela ainda podia conversar comigo durante horas. Agora conversamos menos com palavras. Às vezes faço uma pergunta e ela responde outra. Às vezes diz que me viu passar na rua. Em outras, garante que eu estive lá no dia anterior. Mas sempre sorri quando me vê chegar. Sempre, como se, em algum lugar onde a memória já não alcança, o afeto ainda soubesse exatamente quem eu sou. Outro dia minha sobrinha foi visitá-la. Depois ela comentou, aflita: “A Grace esteve aqui ontem e eu não tinha nada para oferecer. Fiquei morrendo de vergonha.” Sorri e chorei por dentro. Porque a doença pode apagar datas, nomes e acontecimentos, mas ainda não conseguiu apagar a delicadeza de quem sempre fez questão de acolher as pessoas. Ela tem uma irmã gêmea. E a irmã continua vivendo dentro das suas lembranças. Às vezes está no quarto. Às vezes acabou de sair. Às vezes é dona das pernas mais fininhas dentre as duas. Há vínculos que nem o Alzheimer consegue desfazer. Os encontros na casa da família continuam acontecendo, com as três gerações se reunindo para partilhar memórias, afetos e companheirismo. Num destes encontros ela me revela com alegria: “Como é bom quando está todo mundo junto!” Noutra semana novo encontro na casa onde ela viveu durante tantos anos, a mesma casa. O mesmo corredor, a mesma sala. Mas faltava alguém, ou melhor…Faltava o seu jeito de ocupar a casa. As piadas, as brincadeiras, os comentários inesperados que faziam todos gargalhar. Ninguém lamentou em voz alta sua ausência. Talvez esse seja um dos lutos mais silenciosos: o de aprender a conviver com a presença da ausência. Mas depois sua gêmea me confidenciou: “Não faz mais sentido ir àquela casa, pois ela não está mais lá.” Antes dela, a mãe. Antes da mãe, a avó. O Alzheimer já fazia parte da história da família e daquela casa, muito antes de bater a sua porta. Ela acompanhou durante anos a lenta despedida da mãe, ajudou a cuidar, conheceu os esquecimentos, as repetições, as perdas. Talvez nunca tenha imaginado que, algum tempo depois, pisaria no mesmo caminho. Há dores que parecem repetir a história das famílias. Não como castigo. Apenas como um dos modos, às vezes impiedosos, pelos quais a vida se escreve. Mas me recuso a acreditar que essa seja a parte mais importante de sua história. Quando penso nela, prefiro lembrar da professora que ensinava Matemática, da artista que pintava e desenhava, da mulher bonita que amava gatos, da irmã inseparável, da prima que ria de qualquer bobagem e da anfitriã que ainda hoje se preocupa por não ter um café para oferecer. É por isso que escrevo. Não para impedir o esquecimento. Nem para vencer uma doença que ninguém vence. Escrevo porque, quando a memória de quem amamos começa a se fragmentar, alguém precisa guardar os pedaços. Talvez seja esse o nosso último gesto de cuidado. Lembrar por quem já não consegue lembrar. E continuar amando por inteiro alguém cuja memória agora vive em fragmentos. Escrevo porque, quando a memória de quem amamos começa a se fragmentar, alguém precisa guardar os pedaços. É a minha maneira de não permitir que a doença conte sozinha a história de quem ela foi. Saio da ILPI sempre um pouco menor do que entrei. Grace Gomes, psicóloga clínica e facilitadora de Biodança, escreve crônicas baseadas na vida cotidiana e suas experiências, pessoais ou profissionais. Navegação de Post O tombo