Resumo

O artigo discute o valor social da pessoa idosa à luz da experiência histórica das civilizações antigas e dos desafios impostos pela sociedade contemporânea, marcada pela lógica do consumo, da velocidade e do descarte. Argumenta-se que, em diferentes culturas indígenas, africanas, pré-colombianas e nas sociedades clássicas, a velhice era reconhecida como fonte de sabedoria, memória, prudência e orientação ética, desempenhando papel fundamental na preservação da identidade coletiva e na coesão social. Em contraste, a modernidade industrial e tecnológica contribuiu para associar o envelhecimento à perda de produtividade e à exclusão, favorecendo práticas de idadismo e o enfraquecimento da memória social. O estudo defende a necessidade de resgatar a contribuição histórica e cultural das pessoas idosas, reconhecendo-as como sujeitos ativos na construção do bem comum e na formação das novas gerações. São analisadas iniciativas contemporâneas que promovem a convivência intergeracional e o envelhecimento ativo, como moradias intergeracionais, Universidades Abertas à Terceira Idade (UNATI), programas de mentoria, empreendedorismo da economia prateada e políticas públicas voltadas às cidades amigas da pessoa idosa. Destaca-se, ainda, a experiência do Movimento Sociedade Sem Idadismo (MSI), que promove rodas de memória e intercâmbio de saberes entre ex-moradores de Casas de Estudante e universitários, evidenciando o potencial da memória compartilhada como instrumento de formação cidadã, fortalecimento dos vínculos comunitários e combate ao isolamento social. Conclui-se que a valorização da pessoa idosa exige superar uma abordagem assistencialista, promovendo sua participação ativa na vida social, cultural e política, como condição para a construção de uma sociedade mais ética, solidária e democrática.

As civilizações antigas não viam a velhice como um “fardo” ou um estágio de declínio, mas como o período em que a experiência e a sabedoria alcançavam seu maior reconhecimento social. Enquanto hoje, muitas vezes, focamos na produtividade imediata, o mundo antigo entendia que a sobrevivência de um povo dependia da memória e do discernimento que apenas o tempo concede. Devemos voltar ao passado para refletir sobre as lições que os povos antigos nos deixaram e, apoiados por essa reflexão, lutar pela inserção ativa da pessoa idosa na sociedade. O desafio contemporâneo consiste em romper com a lógica do consumo e do descarte, reconhecendo as pessoas idosas não como um custo ou um peso social, mas como sujeitos de direitos, portadores de memória, saberes e capacidade de continuar contribuindo para a vida coletiva.

Em culturas indígenas, africanas e pré-colombianas, onde a escrita não era a forma primária de registro, o idoso era o guardião da sobrevivência. O Idoso era a “Biblioteca Viva” das sociedades de tradições orais. Eles sabiam quais plantas curavam, como interpretar os sinais do clima e como mediar conflitos baseando-se em precedentes históricos. Como diz o provérbio africano popularizado por Amadou Hampâté Bâ: “Quando um ancião morre, é uma biblioteca que se queima”. Para essas sociedades, perder um idoso era perder dados estratégicos de sobrevivência.

Nas democracias e repúblicas clássicas, a idade era um requisito para os cargos de maior responsabilidade. Em Gerousia (Esparta), o conselho de anciãos (homens com mais de 60 anos) tinha o poder de vetar decisões da assembleia. O Senado (a palavra vem de senex, velho), em Roma, era o conselho dos mais experientes. Acreditava-se que os jovens tinham a energia para a guerra, mas apenas os idosos tinham a temperança necessária para a paz e para a justiça. A “pressa” juvenil era equilibrada pela “prudência” senior. 

Na China Antiga, Confúcio estabeleceu que o respeito aos mais velhos era a base da estabilidade de todo o império. Se um indivíduo não consegue respeitar e cuidar de quem lhe deu a vida e o conhecimento, ele não é capaz de ser um bom cidadão ou um bom governante. O cuidado intergeracional não era visto como um “favor”, mas como um pilar de ordem social. Uma sociedade que despreza seus velhos está, inevitavelmente, caminhando para o caos ético. 

Em muitas civilizações, os idosos eram os únicos autorizados a realizar certos rituais ou a contar as histórias de origem do povo. Eram os Guardiões da Identidade e do Sagrado. Eles eram o elo entre o passado mítico e o futuro incerto. Sem os idosos, os jovens perdiam o sentido de pertencimento. Eles sabiam quem o povo era, para que os jovens soubessem para onde ir.

A Revolução Industrial mudou nossa percepção: passamos a valorizar a “peça nova” e a descartar a “peça gasta”. No entanto, as crises modernas (ambientais, políticas e sociais) mostram que a inovação tecnológica, sem a sabedoria histórica, é perigosa. O avanço tecnológico representa uma conquista da humanidade, mas, quando subordinado à lógica da velocidade, do consumo e do descarte, pode enfraquecer a memória social e dissolver as identidades coletivas que dão sentido à vida em comunidade.  Podemos e devemos resgatar a experiência dos povos antigos para construir uma  visão do idoso não como alguém a ser substituído, mas como um mentor que ajuda a evitar que os erros do passado sejam repetidos. O valor de uma pessoa de 60, 70 ou 80 anos não está no que ela “produz” mecanicamente, mas na perspectiva crítica que ela oferece sobre o presente. Nas rodas de conversa entre gerações, como as que ocorrem em espaços de resistência e memória, o que acontece é exatamente esse resgate: o jovem oferece a força e a tecnologia, e o idoso oferece o mapa do caminho e a bússola moral. Hoje, a valorização do idoso está se deslocando da abordagem assistencialista para a da autonomia, da integração tecnológica e, principalmente, da troca entre gerações. 

Como exemplos de experimentações podemos citar: 

1. Moradia Intergeracional: O Modelo “Humanitas”. Originado na Holanda (Deventer) e agora replicado em várias partes do mundo, este é considerado o “padrão ouro” da convivência. Estudantes universitários moram em casas de repouso ou vilas de idosos sem pagar aluguel. Em troca, eles dedicam cerca de 30 horas mensais para fazer companhia, ensinar tecnologia ou simplesmente partilhar refeições. Combate a solidão dos mais velhos e resolve o problema do aluguel caro para os jovens. É uma simbiose onde o idoso oferece sabedoria e o jovem oferece vitalidade e auxílio prático. 

2. Universidades Abertas à Terceira Idade (UNATI). O movimento das Universidades Abertas à Terceira Idade ganhou força no Brasil entre o final da década de 1980 e os anos 1990, acompanhando o envelhecimento populacional e a consolidação da extensão universitária como espaço de educação permanente. Inspiradas em experiências francesas iniciadas na década de 1970, essas universidades buscavam: democratizar o acesso das pessoas idosas ao conhecimento; promover envelhecimento ativo; estimular a convivência intergeracional; desenvolver ações de ensino, pesquisa e extensão.

3. Economia Prateada e Empreendedorismo. O mercado percebeu que a “geração prateada” tem poder aquisitivo e experiência que não podem ser descartados. Iniciativas como a Maturi (https://www.maturi.com.br/historia), uma plataforma brasileira, conecta profissionais com mais de 50 ou 60 anos a empresas que buscam mentorias ou cargos de liderança técnica.

4. Porto Alegre: “Cidade Amiga do Idoso” (OMS). Nossa capital faz parte da rede global da OMS, o que exige o compromisso com diretrizes urbanas específicas como: Reformas em calçadas e terminais de ônibus com foco em mobilidade reduzida (integrando-se ao plano “Poa Futura”). Oficinas de uso de smartphones e aplicativos de serviços públicos (como o agendamento de saúde e o uso do cartão TRI), muitas vezes ministradas por jovens voluntários.

5. Mentoria Reversa em Empresas. Grandes corporações estão adotando programas onde o idoso é o mentor estratégico (visão de longo prazo e ética) e o jovem é o mentor tecnológico (agilidade e novas linguagens). Isso reduz o idadismo no ambiente de trabalho e garante que o conhecimento histórico da empresa não se perca com as aposentadorias.

Essas iniciativas tratam o idoso como sujeito ativo. Enquanto no passado o foco era o “cuidado”, hoje o foco é a “presença” ativa e o reconhecimento da experiência. Ao integrar idosos em casas de estudantes ou em feiras de negócios, a sociedade admite que a experiência acumulada é o único recurso que não pode ser fabricado ou baixado da internet — ele precisa ser vivenciado.

O MSI já vem atuando na construção de Pontes entre Gerações entre elas a que promove o intercâmbio de saberes entre ex-moradores (geração 60+) e atuais estudantes da UFRGS, utilizando a moradia estudantil como eixo de preservação da memória política, social e urbana de Porto Alegre. Já realizamos Rodas de Memória focados na trajetória das casas de estudante (CEUFRGS e CEUACA) abordando a resistência estudantil nos anos 70/80, a conquista da autogestão e a evolução da assistência estudantil. Os jovens estudantes ouviram os relatos de egressos sobre a vida cotidiana no anos 70/80, contrastando com os desafios atuais (custo de vida, permanência e saúde mental). O objetivo é aproveitar o capital intelectual dos veteranos para auxiliar na formação dos jovens. 

Mas ainda não atuamos como deveríamos nas discussões sobre o Plano Diretor de Porto Alegre e programas como o POA Futura, apresentando propostas para a mobilidade dos idosos e a preservação do patrimônio histórico. Precisamos saber como vem sendo usado o FUMID (Fundo Municipal do Idoso) e as possibilidades dele contemplar o financiamento de projetos de combate ao isolamento social e promoção da cidadania da pessoa idosa. E tomar conhecimento das metas do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (https://prefeitura.poa.br/sites/default/files/usu_doc/conselhos/comui/Plano%20de%20A%C3%A7%C3%A3o%20COMUI%202026.pdf) para potencializar nossa ação e dar visibilidade política ao nosso movimento.

Milton Cruz. Sociólogo e pesquisador.

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