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Quando a vida não parece justa

Esta semana a vida me colocou diante de dois cenários que, à primeira vista, parecem opostos — mas que, no fundo, falam da mesma coisa.

De um lado, a morte súbita de um amigo de 50 anos.

Um homem cheio de projetos, um casamento vivo, um apartamento recém-comprado em Santa Catarina, um concurso público feito pela manhã… e a morte chegando à tarde, sem aviso, sem negociação. Um corte seco na linha do futuro.

Do outro lado, poucos dias antes, eu estava sentada em um restaurante celebrando os 82 anos de uma mulher que foi minha orientadora na Biodança e que hoje vive com Alzheimer. Ao lado dela, um marido profundamente apaixonado, atento a cada gesto, cada olhar, cada necessidade. Um amor que permanece, mesmo quando a memória se dissolve.

Ao sair daquele almoço, pensei: a vida não é justa.

E, diante da morte do meu amigo, esse pensamento voltou com ainda mais força.

Por que alguns partem no auge da vitalidade, quando tudo parece começar?

Por que outros permanecem por tantos anos, mesmo quando o corpo e a mente já não respondem como antes?

Talvez porque a vida não siga a lógica que nós, humanos, gostaríamos de impor a ela. Talvez porque o tempo não seja uma linha reta, mas uma dança imprevisível entre presença e ausência, entre começo e despedida.

Aos 50 anos, perde-se o futuro que ainda não foi vivido. Aos 82, com Alzheimer, perde-se aos poucos o passado que já foi vivido. Em ambos os casos, o que permanece é o vínculo.

O amor do marido que cuida. A dor dos amigos que ficam. A presença de quem ainda sustenta a vida, mesmo quando ela se torna frágil.

Talvez a vida não seja justa — mas ela é profundamente relacional. Ela acontece nos laços, nos cuidados, nas memórias partilhadas, nos projetos interrompidos e também nos afetos que insistem em continuar.

Como psicóloga, como facilitadora de Biodança, como ser humano, eu vejo isso todos os dias:

o que nos mantém vivos não é apenas o tempo que temos, mas a qualidade dos vínculos que criamos enquanto ele passa.

E talvez seja isso que, no meio da dor, ainda nos salva.

Porque mesmo quando a vida falha em ser justa, o amor — quando existe — insiste em ser…

Marcações:

1 comentário em “Quando a vida não parece justa”

  1. Parabéns pela reflexão, pela lucidez e por trazer o que de fato é. Concordo com a vida não ser justa, mas ela é necessária e com ou sem esse senso de justiça, sejamos gratos e todo nosso foco deve estar em viver cada dia de forma intensa.

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