É comum ouvirmos de pessoas com mais idade a expressão: “No meu tempo, as coisas não eram assim…”

Realmente, nas décadas de 60/70, as crianças eram tratadas de forma diferente. E isto, com certeza, formou adultos mais resilientes, jovens arrojados e combativos. Saíam cedo de casa, seja para fazer faculdade, alojados em casas de estudantes, seja por casamentos ou por rebeldia mesmo.

Se a família não tivesse as melhores condições financeiras, muitos trabalhavam e estudavam, com perseverança e determinação.

Pergunto-me: “O que mudou? Por que hoje jovens vivem até os 30 anos em casa junto com seus pais?” Podemos mencionar inúmeros exemplos em que, ao concluírem a faculdade, prorrogam a entrada no mercado de trabalho com cursos de especialização, mestrados, doutorados e intercâmbio.

Isto quando chegam à faculdade. Outros se encerram em seus quartos, presos à internet, jogos virtuais, acomodados, displicentes e incapazes.

Há alguns anos, foi publicado um livro com o título Crianças Francesas não Fazem Manha, de Pamela Druckerman.

Gerou algumas controvérsias, pois recomendava que as mães não cedessem às manhas e birras de seus filhos, educando-os dentro de princípios rigorosos de disciplina e incentivo à autonomia.

Pois as gerações das décadas de 60/70 também foram criadas assim. Com disciplina, às vezes na base da palmada, mas com responsabilidade e comprometimento. O resultado foi de crianças e jovens com resiliência, onde o não era não!

Crianças e jovens que foram criados com restrições, tendo o necessário, sonhando em adquirir, mas dificilmente fazendo valer suas pretensões. As roupas eram compradas quando as antigas deixavam de servir. Os brinquedos não eram descartáveis; havia pouco incentivo ao consumo exagerado, ao consumo irresponsável.

O adulto, via de regra, era respeitado, e os mais velhos eram obedecidos e acolhidos em sua sabedoria.

Falava-se pouco em ansiedade e depressão; inclusive, a ansiedade era minimizada com trabalhos manuais: tricô, crochê, bordado e outras técnicas criativas.

Crianças obesas eram poucas, pois as brincadeiras  na rua as levavam ao movimento, mantendo assim uma infância saudável.

Hoje, as crianças não podem chorar; os pais, como robôs treinados a agradar, correm para satisfazer-lhes as necessidades, desde as básicas até as mais fúteis.

Nos berços, já existem mecanismos para que o embalo aconteça automaticamente. Quando andam de carro, para não ficarem entediadas, já é colocado um celular ou tablet com músicas e desenhos infantis, para a criança ficar entretida.

Melanie Klein, psicanalista infantil do início do século passado, criou a teoria do “Seio Bom e Seio Mau”, oferecendo uma explicação sobre a fome e a ausência da mãe, numa forma de prever que a mesma mãe que alimenta pode ser a mãe ausente. E tudo bem.

A criança irá introjetar dentro de si os dois objetos, bom e mau, o que lhe fornecerá subsídios para, mais tarde, suportar a frustração.

Winnicott, também na psicologia infantil, trabalhou com o objeto intermediário, quando a criança substituía sua ânsia imediata por outro objeto de apego e satisfação.

Então, está na hora de tentarmos compreender onde nos perdemos, oferecendo muito mais recompensas do que frustrações, muito mais hedonismo do que preparação a resiliência.

Causando, assim, muito mais ansiedade e depressão diante dos desafios que a vida oferece.

One thought on “No meu tempo”
  1. Grace, excelente explanação. Os pais de hoje em dia, não se sentem bem quando tem que estabelecer limites ou dizer um não. Acreditam que as crianças não podem ser friustradas, em nenhuma situação. Assim, crescem frágeis, com pouca capacidade de resiliência. E, se sentem perdidos quando a vida lhe diz não. E, a vida vai nos dizer não, várias vezes.

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