Entre meus assuntos de interesse apaixonado, posso citar o estudo da História e a pesquisa. Sou daquelas pessoas xeretas que adora ir atrás do que realmente possa ter acontecido, aquilo que está além da versão oficial histórica de cada lugar. Eu adoro filmes e livros de detetives. Não raro, descubro logo quem é o criminoso. Como faço isso? Seguindo pistas que não são as mais óbvias. Atento para os detalhes.

Pois ouvindo um podcast sobre falsificações históricas, descobri que um historiador e antropólogo italiano, chamado Carlo Ginzburg, criou um conceito que chamou de paradigma indiciário: um método de investigação que se baseia na atenção minuciosa aos detalhes. Ao contrário de análises que buscam apenas dados amplos e estatísticas, esse olhar se concentra nos sinais pequenos, nos rastros quase invisíveis que revelam verdades ocultas. Elementar, meu caro, Watson, como diria Sherlock Holmes.
Ele criou esse método para a Micro-História. Aquela que acontece longe dos grandes registros oficiais. Como viviam as pessoas que não marcaram suas trajetórias em documentos oficiais. Como era a vida privada de quem não era relevante historicamente? O pesquisador precisa agir como um detetive, um médico ou um caçador: tem que combinar razão e sensibilidade, rigor e intuição, para reconstruir uma realidade a partir de fragmentos.
E como usar este mesmo olhar para poder filtrar um grande problema dos dias atuais? Ele pode ser uma arma poderosa contra as “fake news” mais elaboradas. Sabe aquelas notícias falsas, especialmente as que circulam em aplicativos de mensagens, que são criadas para parecer verossímeis, especialmente para quem nasceu em um mundo analógico e nem sempre domina a comunicação virtual? Muitas vezes, é nos pequenos deslizes que a mentira se revela.
Vamos fazer um raciocínio conjunto:
- Detalhes fora de lugar — um endereço de site que não é oficial, datas incoerentes, ou erros sutis de contexto.
- Sinais involuntários — pequenas falhas de gramática, ausência de informações precisas, imagens genéricas.
- Reconstrução do caminho — pesquisar a origem da informação e confrontar com fontes confiáveis.
- Desconfiança estratégica — quando a promessa é boa demais para ser verdade, é hora de parar e verificar.
Nada melhor que um exemplo prático. Digamos que uma pessoa aposentada recebe no WhatsApp:
“Governo libera R$1.500 para todos aposentados! Clique no link para sacar seu benefício: www.sitefalso.com.br. Compartilhe com seus amigos!”
Se aplicarmos o olhar do paradigma indiciário:
- O site não é oficial — termina em “.com.br”, mas não pertence ao governo, que usa normalmente o gov.br.
- O apelo é urgente e tentador — dinheiro alto, acesso rápido, incentivo a repassar. Sempre desconfie do que vem muito fácil. Não existe “almoço grátis” como diriam nossas avós e avôs.
- Não há confirmação em canais oficiais — nenhum registro no site do INSS ou na imprensa. Procure em sites oficiais e em canais de imprensa.
- O padrão é típico de golpes — usar a confiança e a pressa como armadilhas.
O alerta é simples:
Não clique, não compartilhe. Observe os detalhes, confirme em fontes seguras. Peça ajuda a alguém antes de agir. Um segundo de atenção pode evitar um prejuízo.
O paradigma indiciário nos lembra que, no mundo digital, o detalhe é a prova. Um olhar treinado para pistas sutis pode ser a diferença entre cair em um golpe ou proteger a si mesmo e a sua rede de contatos.
Elenara Stein Leitão é membra do MSI.