Por Elenara Stein Leitão e Adeli Sell

Nós do Coletivo Metamorfose da Vida, pelas relações que construímos e as que temos vivenciado, estamos vendo, observando, tendo relatos e histórias que nos trazem preocupações. E sentimos a obrigação ética de compartilhar alguns ensinamentos.
Estamos travando um combate ao preconceito de idade, chamado de idadismo, debatendo sobre os estereótipos, o preconceito e a discriminação que se cristalizam nestas práticas. Nestes debates reconhecemos várias dessas ideias que são ditas sobre os mais velhos em termos de fragilidade, como se todas as pessoas seguissem um roteiro. Roteiro este que assusta os mais jovens em uma sociedade que glorifica a juventude.
Já falamos e refletimos sobre o conceito equivocado que está por trás do termo “melhor idade”, ou seja, na maioria das vezes um fazer de conta que está tudo bem.
Também discorremos sobre como a chamada economia prateada é voltada para poucos. Mostramos que a tendência do momento chamada de NOLT – New Older Living Trend – é uma maneira adocicada para nos convencer que todos podemos refazer um mundo idealizado e que as soluções passam por ações individuais.
Mas há um tema que afeta cada vez mais pessoas, e de todas as classes sociais. Olhando para a nossa realidade, para os nossos lares, para pessoas que já não saem de casa, para pessoas que começam a perder memória, que “ficam teimosas” e lá vem o grito da filha cuidadora: “mããee… não faça isto, a senhora não pode mais…” O tom tem tantos decibéis que a vizinha escuta.
Falamos em filhas porque a realidade nos mostra que as mulheres acabam assumindo este papel. Com ou sem filhos, com ou sem empregos remunerados, as mulheres se responsabilizam também pelos cuidados com os pais que se fragilizam. E, na maior parte das vezes, sem saber como lidar com este cuidado.
Resultado: acabam por assumir um papel de inversão de valores. Tentam ser pais e mães de seus pais. E muitas vezes com uma autoridade excessiva.
Por isso o nosso alerta: Você não é nem pode ser polícia da casa.
Faça os arranjos necessários, como preparar a casa arquitetonicamente para que uma pessoa idosa possa transitar com segurança. Mas veja bem, faça estas alterações em comum acordo com eles. Deixe os seus “velhos” viver como sempre viveram. Não trepando na bergamoteira, “pega leve”. Mas se quiser subir em árvores, telhados ou viajar sozinha/o converse com calma e com argumentos para mostrar a sua preocupação. E ouça os argumentos deles já que tem muito mais vivência que você.
Uma pessoa idosa que tem um familiar em atitude policial, chamando-lhe a atenção e policiando seus passos, pode começar a ter a sensação de inutilidade, acabando até por ter dores físicas e emocionais evitáveis. Caso você pensasse mais e não transformasse sua mãe ou seu pai numa criança, a vida deles seria melhor, como a sua também.
A transformação que muitos filhos cuidadores fazem (ou querem realizar) do pai e da mãe idosos em seres infantilizados traz uma profunda dor em sua mente e coração. A infantilização da pessoa idosa por parte de filhos cuidadores é quase sempre prejudicial do ponto de vista psicológico, emocional e relacional. É uma das maneiras de se praticar o idadismo. Imagine-se sendo tratado como uma criança incapaz. O filme “O Último Azul” retrata bem isso, mostrando em um futuro distópico em que chegando aos 70 anos, os velhos perdem a autonomia e são levados para um local de descanso. Não podem mais dispor de seus bens e de sua vida. Lembra algo? Pois é…
A pessoa idosa, se lúcida, não é incapaz, dependente ou cognitivamente imatura, independentemente de suas reais condições funcionais. Se a tratarmos como tal, comprometendo a sua autonomia psicológica, a pessoa idosa pode se sentir com medos e acabar, aí sim, achando que está com incapacidade e necessitando de dependência.Isso compromete a saúde mental, criando uma relação interpessoal desgastada, aumentando a irritabilidade que pode existir na pessoa idosa.
Se você detectar problemas mais graves de saúde mental dos pais, busque uma consulta médica. Busque auxílio de profissionais que possam detectar possíveis problemas.Os casos de princípio de demência ou de Alzheimer exigem paciência, rotina e alguns cuidados práticos. Nestes casos, além disso, faça rotinas, fale devagar, não corrija, acerte “as pontas”. Profissionais da área e grupos de apoio podem ajudar a enfrentar estas situações com maior segurança para os familiares.
O principal conselho que daremos é: paciência e afeto para aproveitar a companhia de seus pais.
Vá pensando nisso, enquanto preparamos os próximos estudos e vamos lhe apresentar novos passos no seu caminho de cuidador familiar.
Elenara Stein Leitão é arquiteta
Adeli Sell é professor
Muito bem colocado, mas de difícil abrangência… pois junto aos cuidados com os pais muitas pessoas ainda têm a sobrecarga no trabalho, cuidado com filhos menores ou adolescentes (geração sanduíche) com ansiedades relativas à vida num geral.
Provocando com que a paciência termine exatamente na parte mais frágil: a pessoa idosa!