ADULTIZAÇÃO DA INFÂNCIA, E INFANTILIZAÇÃO DA VELHICE: Quando a infância é apressada e a velhice é retardada.

Uma semana que escandalizou a sociedade, mobilizou pais, professores, provocou ações de urgência na Câmara, no Senado e prisões de monetizadores da exposição de jovens na internet.

Nós, psicólogos e educadores vínhamos alertando há muito tempo: que o acesso indiscriminado de jovens e crianças às redes sociais daria problemas, mas era mais cômodo aos pais dizerem que estava tudo sob controle.

Esta situação alarmante não acontece só com o “fenômeno” da internet, ela vem de muito antes, com os programas infantis, onde crianças e jovens erotizavam com mínimas roupas, maquiagem, e danças comprometedoras. Nos concursos de misses infantis, com produções dignas de um grande espetáculo, com a liberdade e falta de controle dos pais sobre os limites que deveriam ser impostos a crianças e adolescentes.

Pais concordaram e até incentivaram jovens a driblar a regra nas redes sociais, com relação à idade mínima permitida, então quem já sabia ler e navegar na internet podia ter um perfil no Orkut, depois no Facebook e agora no Instagram. Os vídeos e fotos de filhos, netos e afilhados dançando falando, interpretando foram curtidos e compartilhados em larga escala. Poucos pensavam em preservação da imagem das crianças, o que importava de fato era o grande número de visualizações e curtidas.

Entretanto, as famílias acreditavam que estavam no controle, pois com acesso às redes a criança ou adolescente não estaria exposto aos perigos da rua. Mal sabendo eles que estavam colocando o “inimigo abusador” dentro de casa. 

 Ao darem mais autonomia para crianças e jovens, pularam uma importante etapa do desenvolvimento infantil, no modo de vestir, no acesso a informações inadequadas a idade, na exposição a conteúdo adulto, na erotização e na partilha de informações e imagens com “amigos” virtuais camuflados por perfis falsos de mesma faixa etária.

 Na medida em que o fenômeno de adultização das crianças foi progredindo, os pais entretidos com conteúdos “saudáveis” novos estudos, notícias, fofocas, músicas, filmes e até conteúdo adulto… Essa geração “Sanduíche” não percebeu que seus pais foram envelhecendo e perdendo algumas funções cognitivas, mas que queriam independência e liberdade para viver o que não haviam vivido e o que era esperado para sua idade (!?) ficou perdido no tempo.

No entanto, ao invés de serem reconhecidos como sujeitos com história, experiência e autonomia, muitas vezes foram tratados como incapazes. Esta infantilização tira do idoso o direito de decidir, escolher cuidar de si, e exercer o protagonismo sobre sua vida.

Então os adultos confusos, pois jamais tinham experimentado tamanha modificação nos padrões até então conhecidos, perderam-se tentando trazer os idosos sobre sua tutela, cerceando sua liberdade, controlando seus gastos, controlando medicamentos e decidindo onde eles iriam morar.

E como se fosse uma grande obra de ficção, os padrões de comportamento foram invertidos, jovens e crianças com muita liberdade, e pouco controle, idosos tutelados e sem muita liberdade. E a geração Sanduíche? Esta ficou dividida entre antigos paradigmas:

– Crianças   não têm opinião, jovens não sabem o que querem, adultos decidem o que é melhor para eles;

– Idosos ficam em casa, vendo televisão fazendo crochê ou tricô, indo à missa, cuidando dos netos até não ficarem caducos…

 – Adultos controlam tudo…

Puro Idadismo, não? Mas a pergunta que fica é quando foi perdido o controle? Quais valores ultrapassaram a barreira dos limites éticos? Quem são as pessoas que preferem monetizar valores, ou consumir conteúdo independente de valores éticos?

Um ótimo estudo para sociólogos na contemporaneidade. As respostas ainda não foram encontradas, mas existem alguns indivíduos na sociedade lutando para equilibrar a desigualdade de valores e conceitos intergeracionais. Então ainda nos resta alguma esperança.

O grande paradoxo é que enquanto aceleramos etapas para as crianças, negamos etapas para os idosos. O que reflete a dificuldade social de lidar com os extremos da vida: infância e velhice, ambos marcados por vulnerabilidade, mas também por potencialidades. Isto diz muito sobre nossas dificuldades em lidar com os ciclos da vida, valorizar cada fase é permitir que ela seja vivida em sua inteireza, sem pressa e sem recuo.      Tanto as crianças como os idosos precisam ser vistos em sua individualidade, a criança como criança e o idoso como idoso, cada qual com suas necessidades, mas também com seus direitos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Rolar para cima