
Muitos foram aqueles que escreveram sobre a velhice e sobre a morte.
Simone de Beauvoir escreveu em 1970 o clássico ensaio “Sobre a velhice”, num majestoso apanhado da História da Humanidade e seu tratamento com as pessoas idosas e com a morte destas.
Na Grécia, Platão e Aristóteles tinham visões diversas acerca do “velho”. O teatro grego deve ter sido quem mais tratou do tema, às vezes, com uma crueldade sem tamanho. Em Roma, Cícero e Sêneca tem seus escritos e pensamentos.
Muitos que se debruçarem sobre as longas páginas de “A velhice” de Simone de Beauvoir vão se escandalizar como os povos nômades e outros tantos tratavam das pessoas idosas, não podendo alimentá-las, deixando-as morrer de fome e frio.
Porém, estas mesmas pessoas não se debruçam sobre os relatos que começam a aparecer cada vez mais no Brasil com “velhos” largados e amontoados em “asilos”, casas privadas de longa permanência de pessoas idosas.
POR QUE MÁRIO QUINTANA?
Em anexo, apresento ao leitor 14 poemas do nosso poeta de Alegrete sobre o Tempo, sobre ser “velho”, da metamorfose da vida. Sim a metamorfose sinalizada em seus poemas quando fala de infância e velhice com uma poética tocante.
Porque Mário Quintana sobre tratar do tema de forma simples e poética como poucos.
Esta Metamorfose está em “O velho do Espelho”, onde o poeta se vê e dialoga com seu pai, onde ele é hoje o seu pai de ontem. Sempre com aquela ironia peculiar de Mário Quintana, em diálogo com a infância que não se perde nele:
Lentamente, ruga a ruga…Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mário insiste sempre no tema da Finitude, como aqui em “Tic-Tac”:
Esse tic-tac dos relógios
é a máquina de costura do Tempo
a fabricar mortalhas.
É o inexorável que retoma em “Relógio”
O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.
E o poeta, como disse, sempre com o seu fio condutor na infância, na teimosia, na briga teimosa pelo existir:
Veja isso de forma evidente em “O último poema”
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Pelos caminhos deste mundo.
Sem esquecer da sua geração, dos meninos de sua infância, dos quais é duro e chocante:
E depois, como estão envelhecidos, os pobres-diabos!
É o que os torna ainda mais antipáticos.
Ou seja, o poeta não manda recado, dá o recado.
Mário é o poeta da ironia, da fina graça, do sarcasmo, sem se perdoar:
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
A Morte chegou na sua locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Chega na hora incerta, assim para conclusão e arremate, eis a reprodução de um poema síntese:
Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Mário Quintana é um poeta de uma geração de escritores do modernismo realista, sem perder seus laços com as gerações pretéritas. Sua poética além do real dialoga com a ironia, com o saber, com os sonhos, sem enganar a ninguém
Mário é o filósofo do saber real, da finitude, mas fica caçoando com ela, porque se soubesse o que sabe com a velhice “seguia em frente/E iria jogar pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”.
E, assim, seguimos nós cuidando da Metamorfose da Vida, buscando permanentemente a Arte de Envelhecer.
ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.
ANEXOS
I – O Velho Do Espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto…é cada vez menos estranho…
Meu Deus, Meu Deus…Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficar assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga…Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…
II – Numa bela interpretação do poema acima:
– https://www.youtube.com/watch?v=SGBS13SEA3w
III – Da interminável despedida
Ó Mocidade, adeus! Já vai chegar a hora!
Adeus, adeus… Oh! essa longa despedida…
E sem notar que há muito ela se foi embora,
Ficamos a acenar-lhe toda a vida…
IV – Os fantasmas do passado
– E não te lembras daquela vez em que…?
Faço que me lembro. Rio. Solto saudosos suspiros e exclamações de puro gozo. Oh! que monstruosa e implacável memória a dos nossos companheiros de infância.
E depois, como estão envelhecidos, os pobres-diabos!
É o que os torna ainda mais antipáticos.
IV – Relógio
O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.
V – Tic-tac
Esse tic-tac dos relógios
é a máquina de costura do Tempo
a fabricar mortalhas.
VI – Poema da Gare de Astapovo
O velho Leon Tolstói fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua…
Sentou-se…e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
A Morte chegou na sua locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!
VI – Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
VII – Recordo Ainda
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!
VIII – Cadeira de Balanço
Quando elas se acordam
do sono, se espantam
das gotas de orvalho
na orla das saias,
dos fios de relva
nos negros sapatos,
quando elas se acordam
na sala de sempre,
na velha cadeira
que a morte as embala…
E olhando o relógio
de junto à janela
onde a única hora,
que era a da sesta,
parou como gota que ia cair,
perpassa no rosto
de cada avozinha
um susto do mundo
que está deste lado…
Que sonho sonhei
que sinto inda um gosto
de beijo apressado?
– diz uma e se espanta:
Que idade terei?
Diz outra:
– Eu corria
menina em um parque…
e como saberia
o tempo que era?
Os pensamentos delas
já não têm sentido.
A morte as embala,
as avozinhas dormem
na deserta sala
onde o relógio marca
a nenhuma hora
enquanto suas almas
vêm sonhar no tempo
o sonho vão do mundo…
e depois se acordam
na sala de sempre
na velha cadeira
em que a morte as embala…
IX – As mãos de meu pai
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
– como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram e fremiram da nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
… e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
X – Do mal da velhice
Chega a velhice um dia… E a gente ainda pensa
Que vive… E adora ainda mais a vida!
Como o enfermo que em vez de dar combate à doença
Busca torná-la ainda mais comprida…
XI – Terapias
Pílulas das mais variadas cores, cada uma para as diversas horas do dia. Isso não quer dizer que curasse os velhinhos, não. Mas sempre dava um colorido à mesmice das suas vidas.
XI – Os Velhinhos
Como os velhinhos – quando uns bons velhinhos
São belos, apesar de tudo!
Decerto deve vir uma luz de dentro deles…
Que bem nos faz sua presença!
Cada um deles é o próprio avô
Daquele menininho que durante a vida inteira
Não conseguiu jamais morrer dentro de nós!
XII – Luz por dentro
Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado.
Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.
XIII – Viver
Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite.
Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos…
XIV – O Último Poema
Enquanto me davam a extrema-unção,
Eu estava distraído…
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre n’outra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
– segredo da poesia –
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Pelos caminhos deste mundo.
Graças por esta publicação
Adeli