A SOCIEDADE DO DESCARTE, NÃO É A MESMA DE DESCARTES

Estarrecida com uma notícia de que um idoso havia sido abandonado na via pública, numa cidade do Nordeste brasileiro, venho propor uma reflexão abrangente com relação ao descarte de objetos, resíduos recicláveis, animais, fetos natimortos, nativivos e agora, de pessoas idosas também.

Vivemos numa sociedade com pouco compromisso ético para com a natureza, com os animais e com relação a figura humana, quiçá com o futuro do planeta tão massacrado por seus habitantes.  

Apontar que alguns indivíduos por descaso, ou por falta de opções jogam pneus, armários, sofás e muitos outros objetos inimagináveis em rios, lagos e mares   já é motivo amplo de conscientização e trabalho com a população para realizar o descarte adequado de materiais.

Observar que em muitas praias, seja em qualquer parte do litoral brasileiro apesar de toda a conscientização, trabalho de ambientalistas, ainda proliferam garrafas de plástico, tampinhas coloridas, copos e pratos descartáveis, canudos e latas de bebidas nas areias, nas encostas, em mar aberto, levando pessoas com consciência ecológica a catar estes resíduos, pelo menos no local onde estão desacomodadas.

Quantas vezes você foi surpreendido com relatos de descarte de ninhadas de gatinhos, cãezinhos, cadelas grávidas, cães doentes ou velhos abandonados à própria sorte? E nos afetamos, compadecemos, felizmente já é caracterizado como crime, embora ainda permaneçam praticando essas ações desumanas, tornando o trabalho dos protetores de animais uma tarefa árdua e constante.

Você já deve também ter ouvido ou lido alguma notícia falando sobre o abandono de recém-nascidos, vivos ou mortos em via pública, latas de lixo, banheiros, alguns ainda com o cordão umbilical, outros embrulhados em sacolas, não raro totalmente nus. Salvos pela insistência em manter-se vivo com seu choro forte. Outros mortos, deixando a pergunta se já estava morto ao nascer ou se morreu em decorrência do abandono.

Agora abandono proposital de idoso na via pública, nunca havia ouvido falar, descartar como se solta um animal, abrindo a porta do carro e colocando na calçada, entregue a sua própria desventura… É chocante, cruel e nos revela muito mais da natureza humana do que gostaríamos de saber!

Na poluição do meio ambiente podemos apontar a ignorância como reflexo, no descarte de animais ainda é possível imaginar que a pessoa não tenha muita sensibilidade com outras espécies, no caso do abandono de bebês ainda temos como atenuante a possível psicose puerperal que acomete algumas mulheres após o parto.

Entretanto, abandonar um idoso indefeso, ultrapassa todas as prováveis hipóteses para nos levar a perplexidade sobre a índole e capacidade afetiva de determinados indivíduos, sociopatas com certeza, pessoas que tratam outras como objeto descartável e não merecedor de dignidade.

Fica o questionamento aqui: O que está nos faltando? Numa época de modernidade líquida, as pessoas estariam tornando-se “objetos” descartáveis assim como nas relações líquidas denominadas por Bauman, que dizia “Vivemos uma cultura do descarte, onde até sentimentos são consumidos como produtos: usados, aproveitados e depois descartados!”*

Aliás a dúvida é: Tudo que hoje é certo amanhã poderá se dissolver?

*Zigmunt Baumann – Modernidade Líquida

1 comentário em “A SOCIEDADE DO DESCARTE, NÃO É A MESMA DE DESCARTES”

  1. Sônia Regina Miranda

    Adorei teu texto.

    O “ser humano” tem muito a aprender.

    A idade cronológica pode fornecer alguma indicação sobre o nível de experiência de uma pessoa, mas não determina sua maturidade.

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