É cada vez mais comum a gente sentar numa mesa de restaurante, bar ou cafeteria e encontrar apenas um QR Code no lugar do cardápio. Pode parecer super prático para alguns, especialmente para os estabelecimentos comerciais. Mas o que esquecem é que para uma parcela significativa da população, especialmente as pessoas idosas, essa “evolução” tecnológica pode ser um verdadeiro pesadelo.

Imagine a situação: dona Maria, de 75 anos, vai almoçar com a família num restaurante novo. Quando se senta à mesa, encontra apenas um quadradinho preto e branco com a informação “escaneie para ver o cardápio”. Para ela, que muitas vezes apenas navega em redes sociais ou aplicativos de mensagem, isso pode se assemelhar a decifrar hieróglifos egípcios. Mesmo para quem domina a tecnologia, é desagradável não ter a opção de ter um cardápio impresso.
Aconteceu comigo em uma cafeteria de um bairro nobre de Porto Alegre. Queria apenas tomar um café, comer um petisco e jogar conversa fora em boa companhia. Mas a opção não havia. Era QR Code ou QR Code. Quase levantamos da mesa até que a atendente, com uma cara de enfado, ofereceu o seu celular para vermos o cardápio. Muito desagradável.
Assim como para Dona Maria da ficção e eu da vida real, esse cenário é a realidade de milhões de brasileiros que se veem excluídos pela digitalização acelerada dos serviços. E o pior: muitas vezes as pessoas e empresas nem se dão conta que estão excluindo essas pessoas.
Vamos pensar em conjunto. Nem sempre a dificuldade das pessoas, incluíndo pessoas idosas, com QR Codes vai muito além de “não saber usar celular”. Existem barreiras físicas e práticas reais:
- Limitações físicas: Muitas pessoas têm visão reduzida o que torna difícil enxergar códigos pequenos. Outras têm tremor nas mãos que dificulta manter o celular estável. E outras tantas têm artrite que pode tornar doloroso segurar o aparelho na posição certa.
- Questões cognitivas: O processo de baixar um aplicativo leitor, apontar a câmera, esperar carregar e navegar num site pode ser confuso para quem não cresceu com essas tecnologias.
- Tecnologia inadequada: Muitos idosos têm celulares mais simples que nem sempre conseguem ler QR Codes, ou não têm internet suficiente para carregar páginas pesadas.
- Falta de orientação: Raramente há alguém disponível para explicar como usar, deixando a pessoa constrangida e perdida.
Há ainda outro obstáculo: os programas de fidelidade. Aquele desconto especial que só pode ser acessado via QR Code? Para muitos idosos, é como se não existisse. As empresas adoram esses sistemas porque são baratos, sustentáveis e fáceis de gerenciar. Mas acabam criando uma barreira invisível que exclui justamente o público que tem tempo e dinheiro para ser fiel a uma marca. Basta ver as queixas sobre acessibilidade dos sites nacionais. Forçar o uso exclusivo de tecnologia digital, pode significar deixar de lado uma parcela considerável da população.
Mas como resolver isso? Algumas medidas simples poderiam fazer muita diferença:
Para restaurantes:
- Manter cardápios físicos disponíveis, mesmo que seja preciso pedir
- Usar letras grandes e bom contraste nas versões impressas
- Treinar funcionários para ajudar quem precisa, com educação e boa vontade.
- Oferecer a opção de o garçom ditar o cardápio para quem tem dificuldade visual. O ideal seria ter cardápios em braile
Para programas de fidelidade:
- Permitir cadastro presencial ou por telefone
- Oferecer cartões físicos como alternativa
- Criar pontos de atendimento humano
- Usar linguagem simples nas instruções
Para todos:
- Nunca tornar a tecnologia a ÚNICA opção
- Investir em treinamento de funcionários
- Pensar em acessibilidade desde o planejamento (significa ouvir a voz de quem vai usar no planejamento)
- Lembrar que diversidade de opções beneficia todo mundo
Vale lembrar que acessibilidade não é nenhum favor. É lei. O Estatuto da Pessoa Idosa e várias normas técnicas garantem o direito à inclusão. Empresas que ignoram isso não estão apenas sendo insensíveis, estão descumprindo a legislação.
A tecnologia deveria facilitar a vida, não complicar. QR Codes, aplicativos e sistemas digitais são ferramentas fantásticas, mas não podem ser impostos como única alternativa. O segredo está no equilíbrio: usar a tecnologia para quem quer e consegue, mas sempre manter a porta aberta para quem precisa de outras formas de acesso. Afinal, um restaurante que atende bem tanto o jovem que adora tecnologia quanto o idoso que prefere o cardápio físico é um restaurante que entende de verdade o que é bom atendimento.
No final das contas, incluir todo mundo não é apenas uma questão de responsabilidade social. É um bom negócio. Porque quando excluímos os idosos, estamos perdendo clientes fiéis, que têm experiência de vida, tempo disponível e, muitas vezes, poder de compra significativo.
A pergunta que fica para os empresários é: sua empresa está preparada para atender a todos, ou está deixando dinheiro (e pessoas) na mesa?
Elenara Stein Leitão é membra do MSI